Quando a luta vira casa
Há dores que deixam de doer e começam a morar.
No início, chegam como tempestade. Depois, permanecem como mobília. Não gritam mais — apenas ocupam espaço. Instalam-se em silêncio, pesadas e familiares, como móveis antigos que ninguém ousa retirar.
Com o tempo, a pessoa aprende o caminho da própria batalha. Acorda e a veste antes mesmo da roupa. Ajusta-a aos ombros. Sai com ela pelas ruas, como quem carrega algo necessário.
E quando, por acaso, a luta afrouxa, surge um desconforto estranho. Um vazio. Um frio leve e inexplicável.
Porque há sofrimentos que, de tanto permanecerem, deixam de ser ferida.
Viraram casa.
Stuka Angyali
Enviado por Stuka Angyali em 24/02/2026