O ano troca de pele como as serpentes antigas.
Deixa no chão o corpo gasto, mas mantém o mesmo veneno.
Chamam de novo, mas o tempo ri:
é só o mesmo relógio respirando.
Os reis já não usam coroas.
Vestem números, decretos e discursos mornos.
Sentam-se em tronos invisíveis,
onde o ouro não brilha — sangra.
A cada virada, o sino toca esperança,
mas o som vem rachado.
O pão continua menor,
o peso maior,
e a coleira aprende novos nomes.
Dizem: o ano nasce.
Mas nasce para quem?
Para o povo, ele apenas acorda
com a conta mais longa
e o silêncio mais curto.
Os governantes são como estátuas de sal:
não se movem,
mas corroem tudo ao redor.
Vivem da espera alheia,
da crença de que amanhã será justo
por milagre —
nunca por escolha.
O calendário muda.
O sistema permanece.
E o tempo, esse juiz cansado,
aponta para nós como uma lâmina calma
e sussurra,
sem piedade
nem consolo:
— Vocês ainda acreditam que não são os carcereiros da própria cela.
O ano não manda.
Quem manda somos nós.
Quando esquecemos disso.