O cansaço que esperou
O cansaço de fim de ano
não chega.
Ele emerge.
Como quem esteve submerso
tempo demais
e retorna à superfície
sem pressa,
sem aviso.
Durante meses,
seguimos caminhando por dentro dos dias
como sonâmbulos eficientes.
Cumprimos rituais.
Vestimos nomes.
Respondemos ao mundo
com o corpo presente
e a alma em outro lugar.
Há um cansaço
que não pesa nos músculos,
mas nos intervalos.
No que foi adiado tantas vezes
que aprendeu a esperar em silêncio.
Ele se instala nos sonhos interrompidos,
nas pausas que nunca aconteceram,
nas palavras engolidas
para não atrasar a engrenagem.
Quando o ano começa a se curvar,
o tempo afrouxa a vigilância.
E aquilo que foi empurrado para o fundo
sobe.
Não para acusar,
mas para ser visto.
Não é o corpo que cede.
É a alma que se afasta alguns passos
para não desaparecer inteira.
Talvez o fim de um ano
não peça celebração,
mas recolhimento.
Esse gesto íntimo
de deixar o cansaço existir
sem pressa de resolver.
Algumas coisas
não querem ser curadas.
Querem apenas
não ser mais empurradas
para o fundo.
Stuka Angyali
Enviado por Stuka Angyali em 23/12/2025